Será que faz sentido substituir os sacos de plástico por sacos de papel?

Este novo mês traz consigo um desafio. O “Plastic Free July” tenciona motivar-nos para recusar os plásticos de uso único e procurar outras opções mais sustentáveis no dia a dia. Neste primeiro dia do mês recebemos a notícia de que foi aprovado em Portugal a diretiva, de aplicação obrigatória em todos os Estados-membros da União Europeia, que proíbe, entre outros, produtos de ou com plástico, talheres, palhinhas, cotonetes, agitadores, varas de balões ou esferovites para recipientes de comida. Além disso, neste 3 de julho, celebra-se o Dia Internacional sem Sacos de Plástico. Como tal, não existe momento mais oportuno que este para analisarmos o impacto ambiental dos sacos de plástico e as suas alternativas (algodão, pp e papel).

Agora que estamos mais conscientes quanto ao impacto do plástico, parece-nos óbvio que usar sacos de papel ou palhinhas de papel no lugar das de plástico seria uma melhor opção. Mas será que é realmente assim? Na verdade, é perigoso pensar que substituir um material de uso único por outro também de uso único é a solução.

Na Tabela 1 podemos verificar que, para um saco de papel ser ambientalmente melhor do que um de plástico HDPE utilizado uma vez, o de papel tem de ser reutilizado 3 vezes. Sabendo que o papel se rasga com facilidade, poderá não ser viável reutilizar sempre 3 vezes os sacos de papel. Um saco de algodão, por exemplo, tem de ser utilizado 131 vezes para compensar um de HDPE de utilização única, ou quase 400 vezes, se o de HDPE for reutilizado 3 vezes. Se reutilizarmos um saco de algodão durante um ano, a ser utilizado todos os dias, mais do que uma vez por dia, está óbvio que compensa. Mas se optarmos por comprar de propósito um saco de algodão, tendo vários em casa que não usamos, não teremos o melhor impacto ambiental.

Aqui ficam reunidas algumas vantagens e desvantagens de cada tipo de saco para ser mais fácil tomar decisões quando precisamos de um saco novo (destacando novamente que, o ideal é reutilizar os sacos que já temos).

SACOS DE PAPEL

Vantagens:

  • Origem em fontes renováveis (árvores)
  • Facilmente compostáveis
  • Caso se extraviem para os oceanos, degradam-se rapidamente
  • Podem ser reciclados, se se mantiverem limpos após a utilização

Desvantagens:

  • Um saco de papel tem de ser utilizado 3 vezes para neutralizar o seu impacto ambiental face a um saco de plástico.
  • Consomem 4 vezes mais água e energia na produção do que os sacos de plástico.
  • Quanto à toxicidade humana e ecotoxicidade terrestre, a sua produção faz com que sejam piores do que os sacos de plástico.
  • Rasgam-se com muita facilidade, diminuindo o seu potencial de reutilização.
  • Para serem produzidos, é necessário abater árvores. Se não forem feitos com papel certificado, a sua produção pode estar a contribuir para a desflorestação.
  • Se ficarem com gordura ou molhados, não podem ser reciclados.
  • Os sacos de papel são geralmente umas gramas mais pesados do que os de plástico de utilização única. Isto significa que o seu transporte vai gerar mais emissões de gases com efeito de estufa (GEE).

-SACOS DE PLÁSTICO

Vantagens

  • Se forem HDPE (alta densidade), são os que têm o menor impacto ambiental no que diz respeito à utilização única.
  • São facilmente recicláveis.
  • Embora não reutilizados por muitas pessoas, são resistentes o suficiente para poderem ser reutilizados algumas vezes, mesmo que sejam plástico LDPE (baixa densidade).

Desvantagens

  • Caso sejam produzidos na China , a produção também é consideravelmente impactante no que diz respeito ao potencial de efeito de estufa, uma vez que a utilização da rede elétrica Chinesa (altamente dependente de fontes não renováveis), afeta significativamente a acidificação e ecotoxicidade do saco. Ainda assim, a maioria dos sacos de plástico que consumimos em Portugal, são produzidos cá.
  • O impacto ambiental dos sacos de LDPE está ainda relacionado com a ecotoxicidade aquática e a oxidação fotoquímica.
  • Caso não seja convenientemente descartado (recicláveis e não recicláveis), poderá acabar em rios e oceanos, comprometendo a vida marinha e os ecossistemas.
  • A existência de diferentes tipos de plástico (não recicláveis entre si) e em especial embalagens que não são monomaterial, ou seja, com diferentes materiais, ou diferentes plásticos, torna o processo de reciclagem tão dispendioso que o inviabiliza muitas vezes.

SACOS DE REDE REUTILIZÁVEL (PP)

Vantagens

  • São os sacos com peso mais equivalente aos sacos de plástico transparentes utilizados para pesar frutas e legumes. Isto faz com que seja possível pesar os alimentos diretamente no saco, sem ter de pagar mais do que pesando os produtos antes de os inserir no saco.
  • Sabendo que os sacos de algodão e estes de rede são os mais facilmente reutilizáveis vezes sem conta (por serem muito resistentes), estes são claramente ambientalmente mais vantajosos face aos de algodão, uma vez que apenas precisam de ser reutilizados 14 vezes para compensarem o seu impacto, face a um saco de HDPE.
  • O objetivo destes sacos é pesar a fruta ou vegetais diretamente na balança e colocar no saco. Assim, para além de os poder reutilizar vezes sem conta por ser muito resistente, podemos colocar até 4 referências de diferentes produtos dentro do mesmo saco.

Desvantagens

  • Piores do que os sacos de HDPE de utilização única no que diz respeito à ecotoxicidade terrestre, devido às emissões associadas à utilização de combustíveis fósseis.
  • Contrariamente aos sacos de plástico “convencionais” que utilizamos e são feitos em Portugal, estes são feitos na China, pelo que o impacto ambiental do transporte é superior.
  • Embora sejam facilmente laváveis na máquina de lavar, podem libertar micro-plásticos na lavagem, que vão, através das canalizações, parar a rios e oceanos. No entanto, este problema é facilmente contornável, utilizando um dispositivo de recolha de micro-plásticos durante a lavagem (como o GuppyFriend, a CoraBall ou o Girlfriend).

SACOS DE ALGODÃO

Vantagens

  • Pode ser utilizado durante muitos anos sem se estragar.
  • As matérias primas utilizadas na sua produção (algodão) são renováveis.
  • A sua lavagem não liberta microplásticos, pelo que a manutenção destes sacos é muito simples.
  • São facilmente reparáveis caso se rasguem, ao contrário dos sacos de plástico convencionais e, em fim de vida, podem ser cortados para fazer panos, por exemplo.

Desvantagens

  • É necessário ser utilizado 100-400 vezes para compensar o seu impacto ambiental compensar o de um saco de plástico HDPE.
  • Por utilizarem muita energia na produção do fio de algodão, a sua ecotoxicidade terrestre é muito elevada.
  • A utilização de muitos fertilizantes para o cultivo de algodão, faz com que o seu impacto em termos de acidificação e ecotoxicidade aquática seja também muito elevada.
  • Uma vez que as plantações de algodão se encontram em países sub-desenvolvidos, a compra de um saco de algodão implica sempre uma grande pegada ambiental no transporte. Para além disto, nestes países existe um menos controlo de herbicidas e pesticidas, o que causa graves problemas sociais relacionados com doença dos trabalhadores.

 

CONCLUSÃO

O problema é da descartabilidade dos materiais e não do plástico em si. Por isso, independentemente do tipo de saco, a chave para fazer um uso ambientalmente mais consciente está em reutilizar o máximo de vezes possível, seja para compras ou, quando não for mais possível reutilizar, para substituir os sacos do lixo. Assim, fica claro que, antes de comprar qualquer tipo de saco, devemos reutilizar o que já temos.

Caso não seja possível e tenhamos mesmo de comprar um saco, temos de pensar no uso a que se destina o saco e na manutenção que podemos fazer dele. Se formos levar mercearias secas, poderá fazer sentido comprar um de papel, que conseguimos usar mais de 4 vezes. Se, por outro lado, tivermos de levar alfaces ou legumes que estejam mais húmidos, pode fazer sentido apostar num saco de plástico. Se não tivermos ainda sacos reutilizáveis em quantidade suficiente, por que não aproveitar a oportunidade para comprar um reutilizável (dos de rede, por exemplo, dado que apenas têm de ser utilizados 14 vezes para compensar a compra de um saco de plástico)?

Referências

https://do-zero.pt/supermercado-semdesperdicio-sacos/

Life  cycle assessment of supermarket carrierbags. (2011). Bristol: Environment Agency.

Cadman, J. (2005). Proposed plastic bag levy. Edinburgh: Scottish Executive.

Bell, K. and Cave, S. (2011). Comparison of Environmental Impact of Plastic, Paper and Cloth Bags. Northern Ireland Assembly. [online] Available at: http://www.niassembly.gov.uk/globalassets/documents/raise/publications/2011/environment/3611.pdf [Accessed 10 Oct. 2019].

Lipor.pt. (2019). O papel de cozinha/guardanapo de papel deve ser encaminhado para que contentor do Ecoponto? – Lipor. [online] Available at: https://www.lipor.pt/pt/quiz-lipor/o-papel-de-cozinha-guardanapo-de-papel-deve-ser-encaminhado-para-que-contentor-do-ecoponto/ [Accessed 15 Oct. 2019].

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